quinta-feira, 27 de setembro de 2007

SABERES & NÃO SABERES

SABERES & NÃO SABERES
Andréa Serpa

“O aluno é muito faltoso. Apesar de todo material fornecido: cadernos encapados e etiquetados, lápis, apontador, borracha, quase nunca comparece com os mesmos. O caderno já foi diversas vezes “arrumado”, mas retorna sempre rasgado, sujo, sem capa. Os trabalhos não seguem uma ordem, denunciando a dificuldade da própria organização e percepção espacial do aluno. Demonstra pouco interesse pelas atividades desenvolvidas e encontra-se muito aquém do desenvolvimento do grupo, o que veio ao longo do período se agravando pela sua ausência constante. Apresentou poucos avanços percebidos no período: continua reconhecendo poucas letras e não atribui sentido a sílabas, não lê – nem mesmo de memória – as palavras exaustivamente expostas e trabalhadas como vocabulário de referência. Tenho tido dificuldade de atender suas necessidades particulares pela falta oportunidade de dar continuidade ao trabalho de recuperação paralela. Quando consigo iniciar alguma estratégia, retomar individualmente trabalhos desenvolvidos, o aluno some dois, três dias e retorna completamente desvinculado de tudo que foi vivido e desenvolvido pelo grupo. Não obtive até o momento avanços significativos no campo da leitura e escrita. É uma criança que inspira preocupação.”

Produzi o relatório acima relativo a um dos alunos de minha turma do ano inicial do Ciclo – que até pouco tempo conhecíamos como classe de alfabetização – referente ao período que precedeu o segundo COC.
Assumi esta turma como um cidadão espartano, que vai para a batalha mais importante de sua vida, acreditando na importância dessa luta para a glória de seu país, para a vitória contra o mais terrível dos inimigos: o analfabetismo. Inimigo feroz que avilta a nação durante décadas, nos enchendo de vergonha, nos humilhando diante do mundo.
Parti com fome de vitória, desesperando-me frente a qualquer hipótese de fracasso e determinada a não “perder” nenhum de meus companheiros nesta batalha. Determinação que fez com que mais da metade de minha turma chegasse a este momento apaixonados por livros e histórias, produtores de textos criativos e engraçados, cheios de palavras mirabolantes e gostosas: “numa noite escura e tenebrosa ....” começa Mateus sua história sobre o Bicho Papão, “se eu cantar você crescerá” diz a joaninha a florzinha que não cresce, no final singelo de sua historinha, escreve Thayná. Textos cheios de mortes e abandonos, cheios de medos e fantasias, cheios de amizades e o prazer de escrever as palavras “proibidas” : “a barata vive na merda” escreve e delicia-se o Lucas.
Um outro grupo, mais timidamente, mas trilhando os mesmos passos, ainda tropeça nas letras e me enlouquecem com o coro – coletivo e simultâneo – exigindo aos berros atenção: “ ne? É o n com é? É tia? Heim? ” ao mesmo tempo do outro lado outro grita “ como é gão? De Dra-gão?”
E neste turbilhão que é minha turma, existem crianças como o Eduardo. Faço seu relatório com a testa franzida e um gosto amargo na boca. Não aceito o fracasso. Por mais que me lembrem dos meus limites, do número de faltas, da ausência da família...no fundo de meu orgulhoso coração, não aceito.
No dia seguinte ao COC volto para a sala, revigorada – pois trabalho com pessoas com quem posso compartilhar as alegrias e dores desse caminho – e disposta a intensificar minha atenção aos alunos que ainda encontravam-se, na minha percepção, muito aquém dos objetivos propostos.
Sentei-me com Eduardo e Gustavo – uma outra história – e comecei um jogo com as letras moveis: “como escrevo...BOLA?” – optei por palavras de silabas simples do vocabulário de apoio. Facilmente Eduardo monta e lê. Tento várias outras...caçando as letras como quem cata feijão, corre os dedinhos e vai repetindo o som: VA...V...A...CA,CA...C...A..VACA! “facinho” (tira onda!) . Olho assustada e em um estado que beirava a incredulidade e o desespero. Levanto e corro para a sala da Coordenadora, e relato o que estava vivendo. Ela parece tão surpresa quanto eu, afinal havia avaliado pessoalmente a leitura de todos os meus alunos, e o aluno não tinha conseguido ler. Inconformada volto para a sala e levo Eduardo e as letrinhas a reboque. Chego e encontro a Coordenadora a professora de sala de leitura e outras duas professoras presentes. Começam a “brincar” com Eduardo. A cada palavra escrita e lida, aplausos e parabéns. Eduardo miudinho vira gigante. Os olhos brilham de orgulho. Ele é o centro da roda. Todas o beijam e comemoram. A diretora chega e ele escreve uma palavra “bem difícil” para que leia. Tão difícil que ele não consegue achar as letras que completariam sua idéia inicial, muda de idéia rapidamente e escreve outra palavra. Ela finge errar. Ele triunfante lê para ela. Ela escreve uma também “bem difícil” para ele. Ele pensa um pouco e lê direto...solta baixinho o seu “facinho” outra vez.
Tenho vontade de chorar. Ao contrario do que parece, não de alegria, afinal como disse a professora da sala de leitura presente “Pode respirar, esse já foi!”. Mas eu não respiro. Como pude fazer uma avaliação tão cruel dessa criança? Como foi que não percebi o processo que Eduardo vivia? Como passei tantos meses convivendo com essa criança e não a vi? Depois de tudo que li, de tudo que escrevi, de tudo que defendo e acredito?
“O que sabem os que erram?”, martelava em minha cabeça. E nós, professores, o que pensamos saber? Quantos saberes nos faltam, quantas lacunas, quantas ausências. Porque avaliei o Eduardo de uma maneira tão dura, tão equivocada?
Olhar de colonizador sobre o “selvagem”. Após tudo que havia lido e escrito, após todas as lições de Bhabha, Freire e Esteban, como me deixei emaranhar nesta teia? Após toda a experiência com as crianças da Progressão, após minha própria experiência como criança em uma escola que me excluía, como foi que deixei de ver quem era esse pequeno sujeito que desabrochava e conquistava tantos saberes em minha sala?
Preconceito. Miúdo, negrinho, faltoso. Sua figura surge como um personagem de qualquer filme sobre a grande miséria deste país. Tradução de todos os “nãos” que podemos colar em um sujeito: não é, não tem, não sabe... e eu colei todos, um a um nele. Mas ele não os aceitou.
Seu caderno rasgado, sujo, despencando as folhas rabiscadas, onde suas letras tortas não denunciavam nenhum saber específico – ou meus olhos que não conseguiam ver? – feitas com o lápis, sempre emprestado, em meio as brincadeiras, conversas e brigas, filtraram meu olhar sobre esta criança. Julguei sim, o livro pela capa, e ao invés de lê-lo, buscando nas entrelinhas o mistério de suas aventuras neste mundo da escrita, folheei e descrente de todo seu encanto, o deixei num canto acumulando poeira.
Mas Eduardo, autor de sua própria história, não permaneceu na prateleira que o deixei. Foi tecendo, nos poucos dias que comparecia, hipóteses, competências e saberes. Eduardo negava a escola que em mim permanece, por mais que eu a negue, mas absorvia cada gota de uma outra escola que também existe em mim, apesar de às vezes, sabotá-la. Se eu, vivente de outro século, habitava esta escola flutuante, este estranho entre-lugar entre a escola que eu quero e defendo, a escola que ainda não fiz, e a escola que habitei e segue habitando em mim, a escola que detesto, mas tantas vezes reproduzo, Eduardo sabia exatamente qual escola queria.
Negava sistematicamente os exercícios de cópia, negava o papel desprovido de sentido e seus rabiscos secretos. Negava aquela escola que aprisionava seu pequeno corpo acostumado à liberdade, aos espaços amplos. Aquela escola que o queria sentado corretamente em uma cadeira baixa, em uma mesa alta que não permitia sua visão do quadro ou do caderno. Negava aquelas linhas tão pequenas em que tinha que registrar as letras arrumadinhas.
Eduardo gostava de ouvir de histórias, ver as figuras nos livros. Gostava de observar os jogos com as palavras, brincar de “forca”. Eduardo respirava o ar impregnado de desejo e curiosidade vivido pela turma, compartilhava, a seu modo, das descobertas, perguntas e hipóteses que os colegas criavam. Se negava, por um lado, a prática escolar que o “chateava” , que o “cansava” , expandia todos os seus sentidos em direção as outras práticas escolares que vivíamos em nosso cotidiano.
E mesmo freqüentando o pouco tempo que freqüentou, mesmo não tendo sua aprendizagem reconhecida e valorizada, mesmo quieto em seu canto, Eduardo viveu intensamente as experiências com a escrita e leitura que lhe ofertaram. Ele ouviu, cantou, se emocionou, viveu, cada história, cada festa, cada jogo, cada palavra. E agora ela brotava nele, como por encanto...um encanto que sei ser fruto na verdade da interação do Eduardo com os outros sujeitos em um meio intencionalmente planejado para despertar esta “magia”.
No dia seguinte ao seu “dia de glória” percebi que ele trouxe o caderno de “dever de casa” – que ainda estava inteiro e encapado por seu pouco uso – e resolveu fazer o trabalho de aula – um auto-ditado a partir de desenhos – nele. Pela primeira vez ele começou, como os outros colegas, a exigir minha colaboração: “ SORVETE. Como é o SOR? Tem S e tem O?!” . Fez questão de terminar todo o trabalho. Fez questão que eu corrigisse. Fez questão de se mostrar presente, de mostrar sua competência negando tudo o que escrevera sobre ele.
“Pode respirar, esse ai já foi!”. Respiro. Ele não foi, mas está indo, e neste seu caminhar me leva com ele. Ensinando-me, mais do que muitos livros, o que eu pensava saber e não sabia. Ensinando-me através dos seus saberes, como ainda são muitos os meus não-saberes. Seguimos juntos. Eu a lhe ensinar a ler e escrever as palavras que não consegue ler e escrever sozinho, ele a me ensinar a ler e escrever sobre as crianças, que eu ainda não consigo ler e escrever sozinha.

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