Não. Não ganho o suficiente, tampouco o justo por meu trabalho. Não ganho, com certeza o que ganharia qualquer professora com minhas qualificações e experiência em um país que tivesse – para além de belos discursos – um compromisso sério e honesto para com a educação de seu povo. Apesar de tudo isso, não quero prêmios, nem bônus... Como também não quis e não quero que o povo com seus impostos, pague por minha casa, por minha gasolina, por minhas viagens, arque com os salários de minha família, e de meus amigos, não quero embolsar o dinheiro que mataria a fome, que traria abrigo, que salvaria vidas, que traria a paz. Não quero trabalhar somente de terça à quinta, não quero receber porcentagens por compras absurdas, por obras superfaturadas. Quero apenas um salário digno e justo para realizar um trabalho digno e justo, em condições dignas e justas. Mas isso me foi e é historicamente negado, usurpado, negligenciado.
Ao invés disso me oferecem prêmios. Prêmios que partem do principio que não faço meu trabalho com a seriedade, com o compromisso que ele exige. Que parte da premissa que eu não ensino porque não quero, porque não me empenho o bastante, mas que agora, diante da possibilidade de ganhar a ridícula quantia que é um salário de professor a mais, eu trabalharei. Agora, em troca da possibilidade de conseguir pagar minhas contas sem o auxilio do banco, por pelo menos um mês...eu trabalharei. Agora que receberei “um agradinho” não ficarei mais doente e meus alunos aprenderão o que até então não sabiam. Tão acostumados estão a própria lógica – de só fazerem alguma coisa mediante a “um agradinho” – que tomam a todos nós como seus iguais. Revela-se a armadilha: se mascarar os resultados para ganhar meu prêmio, confirmo a premissa de que o fracasso é culpa de meu descaso. Se não mascarar os resultados, se me comprometer com minha consciência, possibilito que digam que a questão salarial não é importante, pois nem mesmo por mais dinheiro o professor faz direito seu trabalho.
Pois que fiquem com meu bônus! E se dinheiro tivesse pagaria dobrado para que assumissem nossos lugares, nossas escolas, nossos alunos por um ano e demonstrassem na prática o resultado que tanto desejam. Se dinheiro tivesse pagaria dobrado para ver nossos iluminados “especialistas”, nossos competentes “técnicos” e nossos eficientes “gestores” demonstrarem nas suas classes superlotadas com nossas bem educadas crianças e jovens, em nossas tranqüilas comunidades, com nossos fartos recursos, como seu trabalho “ótimo” é inimigo do nosso trabalho “bom”. Afinal é fácil encher a boca para se dizer educador quando nunca se colocou os pés em uma sala de aula de verdade, que provem suas verdades com ações!
Pois que fiquem com meu bônus e o utilizem para contratar os profissionais que a escola precisa: orientadores, inspetores, assistentes sociais, psicólogos. Fiquem com meus bônus e o utilizem para investir na infraestrutura que as famílias necessitam para educar seus filhos – trabalho, saúde, cultura, esporte, saneamento, segurança, etc – pois não existe escola pública que conseguira o sucesso escolar diante de tanto fracasso social.
Fiquem com meu bônus. E não o quero. Não em troca de mascarar nossa realidade com avaliações estéreis e inúteis, não em troca de ocultar nossa realidade neste município, neste estado ou neste país. Não estou a venda. Não coloquei minha consciência em leilão.
Naturalmente sei que existem muitas diferenças entre os profissionais da rede municipal. Como existem diferenças entre os profissionais do Estado e do país. Mas é justo comparar seus desempenhos? Ou ainda: é justo comparar seus desempenhos sem levar em consideração a diversidade de suas realidades? Sem oferecer as mesmas condições, possibilidades, infra-estrutura? É justo comparar as pessoas quando lhes são singulares as trajetórias, as oportunidades e o acesso à formação e informação?
Se for, proponho que comecemos então um grande sistema de avaliação comparativa entre governos: que seja estabelecido um salário base para cada governador, para cada prefeito, para cada secretário. Que eles tenham suas gestões avaliadas pela população e recebam seus salários em porcentagens de acordo com suas notas obtidas. Que marquem seus cartões de ponto, que comprovem seu desempenho com mais do que palavras. E não vale chorar dizendo que o colega de outra secretaria ou cidade tem mais ou menos dinheiro, mais ou menos problemas: isso não cabe na avaliação comparativa! Todos os estados, todos os municípios, todas as secretarias são iguais e pronto! Vamos gastar nossos impostos somente com aquelas que consigam comprovar sua eficiência, as demais serão punidas com menos verba até que se mostrem merecedoras. Como vão melhorar sem investimento? Não interessa, nesta lógica somos todos coletores do sucesso, ninguém quer ser responsável pelo plantio.
Comecemos, portanto, a comparar: Comparar nossos salários e a infraestrutura dos recursos humanos, por exemplo, com os salários e recursos dos outros municípios – alguns muito menores e com orçamento muito mais humilde – no Estado do Rio de Janeiro. Comparemos e perguntemos: por que algumas prefeituras pagam o dobro do que recebemos aos seus professores? Por que algumas prefeituras possuem um plano de cargo e salários melhores do que nós? Por que algumas prefeituras contam com especialistas concursados: Coordenador Pedagógico e Orientador Educacional? Por que algumas prefeituras possuem inspetores de alunos, coordenadores de turno, secretário escolar (obrigatório por lei para as escolas particulares)?
Comecemos a comparar os discursos, coquetéis, notícias e todo espetáculo orquestrado com os fatos de nosso cotidiano: o que de fato mudou? O que de fato garantiu mais qualidade em nosso trabalho? O que de fato mudou na vida de nossos alunos? Nossa vida profissional está melhor? Nossa auto-estima está melhor? Nossa escola, está de fato, melhor?
Temos com certeza muito o que comparar nestes próximos anos...
Andréa Serpa
23/07/09
Ao invés disso me oferecem prêmios. Prêmios que partem do principio que não faço meu trabalho com a seriedade, com o compromisso que ele exige. Que parte da premissa que eu não ensino porque não quero, porque não me empenho o bastante, mas que agora, diante da possibilidade de ganhar a ridícula quantia que é um salário de professor a mais, eu trabalharei. Agora, em troca da possibilidade de conseguir pagar minhas contas sem o auxilio do banco, por pelo menos um mês...eu trabalharei. Agora que receberei “um agradinho” não ficarei mais doente e meus alunos aprenderão o que até então não sabiam. Tão acostumados estão a própria lógica – de só fazerem alguma coisa mediante a “um agradinho” – que tomam a todos nós como seus iguais. Revela-se a armadilha: se mascarar os resultados para ganhar meu prêmio, confirmo a premissa de que o fracasso é culpa de meu descaso. Se não mascarar os resultados, se me comprometer com minha consciência, possibilito que digam que a questão salarial não é importante, pois nem mesmo por mais dinheiro o professor faz direito seu trabalho.
Pois que fiquem com meu bônus! E se dinheiro tivesse pagaria dobrado para que assumissem nossos lugares, nossas escolas, nossos alunos por um ano e demonstrassem na prática o resultado que tanto desejam. Se dinheiro tivesse pagaria dobrado para ver nossos iluminados “especialistas”, nossos competentes “técnicos” e nossos eficientes “gestores” demonstrarem nas suas classes superlotadas com nossas bem educadas crianças e jovens, em nossas tranqüilas comunidades, com nossos fartos recursos, como seu trabalho “ótimo” é inimigo do nosso trabalho “bom”. Afinal é fácil encher a boca para se dizer educador quando nunca se colocou os pés em uma sala de aula de verdade, que provem suas verdades com ações!
Pois que fiquem com meu bônus e o utilizem para contratar os profissionais que a escola precisa: orientadores, inspetores, assistentes sociais, psicólogos. Fiquem com meus bônus e o utilizem para investir na infraestrutura que as famílias necessitam para educar seus filhos – trabalho, saúde, cultura, esporte, saneamento, segurança, etc – pois não existe escola pública que conseguira o sucesso escolar diante de tanto fracasso social.
Fiquem com meu bônus. E não o quero. Não em troca de mascarar nossa realidade com avaliações estéreis e inúteis, não em troca de ocultar nossa realidade neste município, neste estado ou neste país. Não estou a venda. Não coloquei minha consciência em leilão.
Naturalmente sei que existem muitas diferenças entre os profissionais da rede municipal. Como existem diferenças entre os profissionais do Estado e do país. Mas é justo comparar seus desempenhos? Ou ainda: é justo comparar seus desempenhos sem levar em consideração a diversidade de suas realidades? Sem oferecer as mesmas condições, possibilidades, infra-estrutura? É justo comparar as pessoas quando lhes são singulares as trajetórias, as oportunidades e o acesso à formação e informação?
Se for, proponho que comecemos então um grande sistema de avaliação comparativa entre governos: que seja estabelecido um salário base para cada governador, para cada prefeito, para cada secretário. Que eles tenham suas gestões avaliadas pela população e recebam seus salários em porcentagens de acordo com suas notas obtidas. Que marquem seus cartões de ponto, que comprovem seu desempenho com mais do que palavras. E não vale chorar dizendo que o colega de outra secretaria ou cidade tem mais ou menos dinheiro, mais ou menos problemas: isso não cabe na avaliação comparativa! Todos os estados, todos os municípios, todas as secretarias são iguais e pronto! Vamos gastar nossos impostos somente com aquelas que consigam comprovar sua eficiência, as demais serão punidas com menos verba até que se mostrem merecedoras. Como vão melhorar sem investimento? Não interessa, nesta lógica somos todos coletores do sucesso, ninguém quer ser responsável pelo plantio.
Comecemos, portanto, a comparar: Comparar nossos salários e a infraestrutura dos recursos humanos, por exemplo, com os salários e recursos dos outros municípios – alguns muito menores e com orçamento muito mais humilde – no Estado do Rio de Janeiro. Comparemos e perguntemos: por que algumas prefeituras pagam o dobro do que recebemos aos seus professores? Por que algumas prefeituras possuem um plano de cargo e salários melhores do que nós? Por que algumas prefeituras contam com especialistas concursados: Coordenador Pedagógico e Orientador Educacional? Por que algumas prefeituras possuem inspetores de alunos, coordenadores de turno, secretário escolar (obrigatório por lei para as escolas particulares)?
Comecemos a comparar os discursos, coquetéis, notícias e todo espetáculo orquestrado com os fatos de nosso cotidiano: o que de fato mudou? O que de fato garantiu mais qualidade em nosso trabalho? O que de fato mudou na vida de nossos alunos? Nossa vida profissional está melhor? Nossa auto-estima está melhor? Nossa escola, está de fato, melhor?
Temos com certeza muito o que comparar nestes próximos anos...
Andréa Serpa
23/07/09

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